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Lourdes Feria /// Entrevista
com Alfredo Jaar
Em Março assistimos na galeria
Lelong, em Nova Iorque, à exibição do seu filme
Muxima que abre com um poema de Agostinho Neto. Vemos imagens de um
velho forte militar português forrado de azulejos, a decadência
da estatuária, os vestígios da época colonial
que durou séculos. Vemos a descida do rio Kuanza. Vemos close-ups
de ruas com nomes de figuras ligadas à mitologia revolucionária
da União Soviética e de Cuba. E outros sinais que ajudam
a compor o retrato de Angola. É um filme a cores de 36 minutos.
Belíssimo e com um enorme grau de eficácia.
Na primeira cena do filme, seis crianças
posam para a câmara sorrindo e com as mãos nos corações.
Muxima em Kimbundu significa coração.
A. J. Exactamente. Quando fui
a Angola em 2004-2005 para recolher o material visual usado no filme
investiguei tudo isso a fundo. Trata-se de uma canção
do folclore tradicional que, nos finais dos anos 50, foi recriada por “Liceu” Vieira
Dias, o líder do Ngola Ritmos, que era um grupo constituído
por músicos ligados à fundação do MPLA,
empenhado num projecto cultural e político. O Vieira Dias e
o Amadeu Amorim, outro membro da banda, foram presos em 1959 e deportados
para o Tarrafal, no território de Cabo Verde, donde só voltaram
dez anos depois. De resto, a banda nasceu para afirmar a identidade
de Angola. A letra, aparentemente inocente, descreve a história
de uma mulher acusada de feitiçaria.(...) |