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Paulo Reis /// CONVERSA COM JOSÉ BECHARA Se a qualidade de um artista se mede pelo esforço prometéico, José Bechara alcançou este statuto pela persistência e pela inteligência em transformar algo empírico em habilidade artística reconhecida. A verdadeira inteligência que conhece-se as vezes pelas qualidades não aparentes. O escritor austríaco Robert Musil escreveu, em seu seminal livro O homem sem qualidades, que “infelizmente não há nada mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor, a quem perguntaram como conseguia ter tantas ideias novas, respondeu: «pensando constantemente nelas». Com efeito, bem podemos dizer que as ideias inesperadas só nos vêm porque já estávamos à espera delas. São, em grande parte, o merecido fruto de um carácter, de certas inclinações estáveis, de uma ambição tenaz, de uma incansável actividade. Como é que uma tal perseverança pode deixar de ser enfadonha? Vista por outro prisma, a solução de um problema intelectual é mais ou menos semelhante ao que acontece quando um cão pretende passar por uma abertura estreita levando um pau na boca; volta a cabeça para a direita e para a esquerda até que o pau passa de lado; nós fazemos precisamente o mesmo, só com a diferença que não tentamos ao acaso, antes sabemos mais ou menos, por uma questão de hábito, como havemos de manobrar. |